Central Comics

Banda Desenhada, Cinema, Animação, TV, Videojogos

Cinema: Crítica – Pinóquio

Existem inúmeras adaptações para cinema de Pinóquio de Carlo Collodi, mas nenhuma conseguiu reunir tanta popularidade como a versão de Walt Disney, em 1940, um filme revolucionário no cinema de animação e um dos clássicos mais icónicos do estúdio do Rato Mickey. Agora, Matteo Garrone faz jus à perspetiva mais obscura do conto de fadas original com uma adaptação exemplar.

Embora a versão da Disney seja hoje considerada uma das obras mais tenebrosas do cinema de animação infantil, o texto de Collodi era suficientemente macabro ao ponto de, hoje em dia, poucas pessoas deixarem os seus filhos ler, uma vez que os protagonistas sofrem todo o tipo de adversidades, com momentos perturbadores.

Roberto Benigni é Geppetto

Nesta nova adaptação, Garrone não só mostra uma reverência pela crueldade presente no texto, como acrescenta ainda estranheza no desenho das personagens, que parecem saídas das obras mais adultas de Jim Henson, o conhecido criador da Rua Sésamo e dos Marretas. A diferença é que aqui, para além da espetacular caracterização, existem momentos em que é utilizada uma camada digital no rosto de Pinóquio, conferindo-lhe um ar suficientemente real para lhe dar credibilidade.

Federico Ielapi interpreta Pinóquio

O interessante deste novo Pinóquio é a sua capacidade para trazer à tona a emoção por detrás de uma fantasia próxima do terror, algo que terá certamente ligação com a nova versão idealizada por Guillermo Del Toro, que estreará no próximo ano. A beleza das imagens surge na simplicidade da narrativa e ecoa nas emoções ocultas das personagens, sem outras motivações que não encontrar e partilhar o seu amor incondicional num contexto de pobreza, que faz lembrar o retrato da Itália rural do pós-guerra.

Como nas obras do neo-realismo italiano, um deserto de pobreza e as condições sociais da época são retratados através da humanidade das personagens, com a atenção sempre colocada nos sentimentos e não na própria trama. Cada sequência da história funciona quase como uma passagem independente, assemelhando-se ao caráter episódico da obra original.

No entanto, a fotografia cuidada eleva a natureza fantástica da película, notando-se a mão de Garrone nos vários momentos de honestidade sentimental, conseguindo criar magia pura, como na cena em que assistimos à transformação final de Pinóquio dentro de um estábulo cheio de cordeiros, criada de uma forma tão delicada e natural que apela às emoções mais puras dos espectadores.

Parte dessa pureza vem da relação terna entre Gepeto e a criança, tão espontânea e real como marcada pela magia, que contrasta com o desenvolvimento sombrio das várias dificuldades, mais do que aventuras, pelas quais passa o boneco de madeira. Em poucos filmes para crianças, o protagonista é enforcado, afogado e consumido pelo fogo, mas nada disto afasta a câmara e o olhar dos espectadores.

Este Pinóquio de Matteo Garrone é um conto de fadas sombrio e comovente, talvez com uma narrativa demasiado episódica e fragmentada, mas com uma coerência estética espantosa, que o diferencia das restantes adaptações da obra. Um filme que desafia a imaginação e a coragem das crianças, algo que tem faltado às mais recentes películas em ação real da Disney.

Nota Final: 7,5/10

Bernardo Serpa

Apaixonado desde sempre pela Sétima Arte e com um entusiasmo pelo gaming, que virou profissão.

One thought on “Cinema: Crítica – Pinóquio

  1. Gente fui no cinema ontem com a minha filha de 7 anos assistir esse filme do Pinóquio! Que macabro!!! 😱 Ela não quis nem dormir sozinha! Gente que versão macabra! Achei que seria um filme cheio de magia e vimos enforcamento, caixão, morte, amputação… Que filme macabro e maluco! Por mais que seja a versão original da história deveria ser censurado para crianças!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights