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Cinema: Crítica – Parthenope

De regresso às paisagens deslumbrantes da costa sul do mediterrâneo, Paolo Sorrentino traz-nos Parthenope (2024), distribuído pela A24, aquele que é um dos, senão o maior, cineasta italiano da atualidade. Se em The Hand of God (2021) percorremos recortes da infância do próprio realizador nos anos 80s, sendo uma espécie de cinebiografia, esta mais recente longa-metragem é uma jornada bastante mais poética e simbólica, onde acompanhamos a vida da jovem Parthenope (Celeste Dallas Porta), referência a uma serreia de mesmo nome, da mitologia grega, no decorrer da sociedade dos anos 60s em Nápoles. 

Celeste Dalla Porta é Parthenope

Como referi logo de início, uma das primeiras impressões que se tem com este filme está em torno da sua apresentação estética. A atmosfera iluminada, das águas cristalinas  às cores vibrantes, faz-nos crer como se estivéssemos envolvidos numa experiência onírica, num destino turístico paradisíaco, elevando, assim, a obra a praticamente uma ode ao encanto da cidade napolitana. Tudo fruto do excelente trabalho de fotografia de Daria D’Antonio, que já havia acertado neste estilo no projeto anterior de Sorrentino, mas que aqui sobe patamares, tornando a hipnotizante cidade, não só numa paisagem vibrante, mas numa personagem ativa, uma espécie de lugar-comum neste tipo de sinergias visuais, como no caso da relação do cineasta Wong Kar-Wai com a região de Hong Kong. 

Para lá deste acerto técnico e exterior, algo que é realmente impensável não ressaltar, o que tem Parthenope (2024) mais a dizer, narrativamente? Bem é que aqui que entra a minha posição um pouco conflitante em relação ao filme. Se por um lado, Sorrentino faz-nos querer apaixonar, à superfície, pela cidade e pela sua personagem titular, por outro lado, o que entrega em termos de profundidade nesse quesito, é o que deixa muito a desejar. Não quero assumir já uma postura maniqueísta e rotular logo o filme de caso “style over substance“, pois acredito que o cineasta tenha uma visão clara e simbólica do que queria fazer e dizer com a sua protagonista, embora não possa negar que não exista uma zona cinzenta e ambígua na sua caracterização.

Gary Oldman em “Parthenope”

Ao longo do filme, e desde logo de tenra idade, Parthenope é introduzida como uma quase divindade. Todos se curvam perante a sua beleza, moldando-se a realidade às suas vontades e caprichos, onde a camera assume um papel preponderante em retratá-la como um objeto, fruto desse desejo. Sabemos que é aluna de antropologia e que tem paixão por essa área de estudo; que o seu amigo de infância tem uma relação de amor platónica consigo; e outra relação com o seu irmão, que beira no limite, o incesto, com vários innuendos visuais a indicar isso mesmo, tamanha é a atração que a protagonista provoca ao seu redor. Fora isso, à medida que explora além dos limites da sua zona, tem contacto com o mundo do estrelato da atuação, com as nuances das famílias napolitanas, com a arte e a religião, e ainda havendo espaço para, por breves segundos, referência a potenciais incursões políticas da época. 

A narrativa foge de afirmar afincadamente uma postura assertiva naquilo que quer que Parthenope seja. É tudo muito superficial, e quem vê fica sem saber exatamente o que quer Sorrentino dizer e fazer com a sua musa italiana. É nesta encruzilhada que me encontro. É uma longa-metragem cheia de momentos isolados, marcantes ou não, onde a sua junção não tem muita cola entre si. Tendo-se alguma distância com o  que se vê, parece demasiado disperso, onde não há a tal soma das partes. O filme encontra, de alguma forma, o seu porto seguro, mesmo na tangente final do terceiro ato, onde há um leve payoff ao que se viu, onde Parthenope é interpretada por uma versão sua, mais velha (Stefania Sandrelli), onde se reflete, bruscamente, por todas as memórias e experiências que vivenciou durante as pouco mais de duas horas de duração. Sendo a única premissa narrativa permanente a questão do destino do seu irmão e respetivo “triangulo amoroso” que se desenvolve na primeira parte, mas que não irei entrar em mais detalhes, para evitar spoilers. 

Lembrei-me agora do personagem John Cheever, um escritor que a jovem admira, interpretado por Gary Oldman, que teve um papel importante no marketing, mas que na prática, é quase tão ambíguo quanto a própria personagem titular, o que por si só já diz muito de certas escolhas criativas. Um ou outro apontamento de diálogo interessante, ainda que surgindo tão rápido quanto desaparece de cena. Seja como for, é difícil explanar totalmente o que retive da minha experiência de Parthenope (2024), não posso dizer que fiquei indiferente, nem que durante toda a sua duração não fiquei intrigado com o que se iria suceder, pois foi o oposto.

Celeste Dalla Porta, Dario Aita e Daniele Rienzo e, “Parthenope”

Apesar de sair mais satisfeito do que insatisfeito, pois enquanto apreciador da filmografia de Paolo Sorrentino, sei que é capaz de bem mais, mesmo sendo subtil, como é o caso da epopeia que explora o outro lado do glamour da beleza italiana em The Great Beauty (2013). Talvez as expectativas certas nivelem o grau de apreciação com o filme, ainda que seja impossível não trazer à tona alguns dos deméritos que a narrativa apresenta, sendo a meu ver, o guião mais fraco do realizador, de que há memória. Dito isto, para finalizar, para quem apreciou anteriores trabalhos do cineasta, Parthenope (2024) oferece uma experiência visualmente encantadora, mas que, no final, deixa mais perguntas vagas do que respostas concretas, tornando-se um belo, embora desiquilibrado, exercício cinematográfico. 

João Pedro

Alguém que vê de tudo um pouco, do que se faz no mundo da Sétima Arte, um generalista por natureza. Mas que dispensa um musical ou comédia

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